sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012


Ousadia
Não poderia eu dar outro título a isso.
Por mais que eu pense e tema, a necessidade de registrar uma vivência tão grata é maior do que tudo.
Voltar à pacata Chavantes é remomorar e verificar o que de bom ficou da minha passagem por la em quatros anos de moradia na cidade.
Antes de chegar à rodoviária, ao sair da rua central, é inevitavel olhar para à minha esquerda em busca de uma das figuras mais humanas que já conhei: Geraldo Machado. La fica sua casa, onde fui tão amavelmente recebida outrora. Eu queria saber e perguntava. E ele respondia, calmamente e me ensinava.
Cheguei ao seu portão com receio, não queria importuná-lo, mas desejava muito vê-lo.
Sua filha Cristina atendeu-me sorrindo e disse-me que ele teria saído e provavelmente estaria no Museu.
Quantas lembranças trouxeram-me esta informação... O Museu de Chavantes... Sr Francisco... meu querido pai Brito (José Brito Pessoa, meu avô materno com quem fui criada).
Meu pai doou para este Museu objetos muito valiosos para ele, como uma foto “revelada na lata” que continha-o ainda menino ao lado do seu pai.
O Museu ficava na época próximo à rodoviária, mas para a minha surpresa, agora estava bem mais distante da casa do Sr Geraldo: na Antiga Estação Ferroviária. E mais lembranças alojadas se manifestaram: meu pai foi ferroviário. Chefe do lenheiro! Imaginem!
Fui ao encontro de Geraldo Machado. La estava ele sentado aguardando-me, pois Cristina havia ligado avisando-o.


Não nego que estava muito emocionada e o livro que eu levava “A memória em Negro” pesava nas minhas mãos, como a responsabilidade de um “cargueiro”.
Após passarmos por atualizações necessárias, abraçar com saudades a minha amiga Maria Helena , pude entregar-lhe o livro e em seguida, recebi de suas mãos sua mais recente obra: “ Na garupa da memória” .
Convidou-me para almoçarmos em sua casa e para isso saímos.
No caminho, amigos o cumprimentavam com alegria e respeito.
Há muito tempo eu não sentia o sabor do cavalheirismo.
Atenciosamente, me conduzia para que não ficasse nunca para o lado da rua na calçada e sempre oferecendo-me à sua frente.
Caminhamos juntos e vez em quando ele dizia: “ Não se esqueça que eu tenho 92 anos!”
Em sua casa, muito bem recebidos por Cristina, sua filha, a cada canto uma lembrança. A cada objeto uma história.
A pedra de moinho como mesinha de centro na Biblioteca, convidando a manter a leitura circulando sempre.
Aquela “barba veneranda” no quadro, mostrando que a sabedoria é muito mais do que o acumulo de informações obtidas e atualizadas.
A estrada que se abre à minha frente, na tela convitativa para viajarmos em suas memórias estrada afora, na garupa da ancestralidade.
Tudo isso, perfumado com o tempero de Cristina.
Mesa posta, chamado feito! Que delicia o aconchego desse lar!
Que difícil terminar esse dia e voltar à realidade cotidiana e com tantas imbecilidades.
Geraldo Machado, respondeu-me tudo o que eu perguntei e muito mais o que não questionei.
E não nos esqueçamos que ele tem apenas 92 anos!

Fotos do Jornal  Debate 
Santa Cruz do Rio Pardo - SP
 
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